Leite de Vasconcellos (1858-1941) e a ciência etnográfica em Portugal

 

 

Manuel Viegas Guerreiro e Leite de Vasconcelos

Encontro profícuo para a etnografia

Por LÍVIA CRISTINA COITO

 

 

 

 

A Fundação Manuel Viegas Guerreiro numa ação de divulgação das obras do seu Patrono e que se inicia no ano do 108.º aniversário do seu nascimento, fez-me um convite para comentar o título Leite de Vasconcellos (1858-1941) e a ciência etnográfica em Portugal, o que muito me honrou, pelo que aceitei este desafio. O meu texto vai-se focar principalmente na análise das afinidades entre discípulo e Mestre, dois grandes vultos da Etnografia portuguesa.

A minha ligação “pessoal” a Leite de Vasconcelos surgiu principalmente de remexer e organizar o seu espólio, os seus papéis de inúmeros formatos, e do esforço de decifrar a sua letra. Nisto, a minha afinidade com Viegas Guerreiro que também organizou os seus papéis para publicação das obras póstumas, enquanto a mim me coube a sua organização para os poder disponibilizar aos investigadores.

O seu legado pessoal deixado em testamento ao Museu, revela-nos o seu labor científico, e também aspetos mais particulares da sua personalidade. Depois da sua morte o Museu recebeu em 1943, manuscritos pessoais, grande parte da sua biblioteca, objetos arqueológicos e etnográficos.

Após ter ficado 40 anos praticamente intocável nas prateleiras do depósito, a partir de 1986 iniciou-se um trabalho sistemático de organização deste arquivo pessoal tendo-se editado em 1999 o Inventário da sua correspondência com cerca de 27.000 espécies de 3800 correspondentes. Os manuscritos estão organizados por áreas temáticas e disponíveis para consulta dos investigadores. Este arquivo, num total de 252 caixas, pode ser considerado o maior espólio pessoal existente em Portugal.

Manuel Viegas Guerreiro entra em contacto com Leite de Vasconcelos através de um amigo comum e seu colega de faculdade, Orlando Ribeiro. Os laços profissionais e de sólida amizade entre o Mestre e o discípulo vão-se fortalecer nos poucos anos de convívio pessoal. Viegas Guerreiro vem para Lisboa pelos 20 anos, começa a corresponder-se com Leite de Vasconcelos com 22 anos, em 1934, quando este já tinha 76 anos e o último postal enviado é de abril de 1941. O passamento de Leite de Vasconcelos dá-se em Maio desse ano, e na véspera à noite esteve em sua casa, segurando-lhe na mão, conforme relato do próprio. É uma forte ligação que se cria entre um jovem e um idoso; um com desejo de aprender e o mestre e professor já sem alunos, mas sempre pronto a ensinar os discípulos que o ajudam na organização dos seus manuscritos, com as leituras e a escrita.

Ao analisarmos os dois intervenientes neste texto e, apesar da enorme diferença de idades, verificamos que têm muitos interesses em comum, o que naturalmente deve ter contribuído para o excelente entendimento, colaboração e amizade entre ambos.

Leite de Vasconcelos nasceu, cresceu e viveu na Beira até aos 18 anos e a sua ligação à terra e influência desse ambiente rural moldou-lhe o caráter. Esse meio era também rico em testemunhos do passado, com os mosteiros de S. João de Tarouca e Salzedas nas vizinhanças de Ucanha, sua aldeia natal. Desde cedo todos estes vestígios, registos arqueológicos e etnográficos chamaram-lhe a atenção e começou de imediato a tomar notas nos seus “caderninhos”. Essa sua vivência em meio rural refletiu-se nos seus primeiros artigos, de temática etnográfica, publicados em jornais, assim como no seu primeiro livro editado com apenas 20 anos “O Presbitério de Vila-Cova”. Aos 18 anos por necessidades económicas vai trabalhar e continuar os estudos no Porto.

Manuel Viegas Guerreiro nascido em Querença no Algarve, igualmente em meio rural, parte ainda menino para Portimão e com 10 anos para Faro para continuar os estudos. Todo o seu ambiente familiar também lhe desperta o interesse pelas tradições populares. Com apenas 15 anos faz as primeiras recolhas de literatura popular e com 17 publica o artigo “O Homem através dos Tempos” no jornal “O Comércio de Portimão”. A sua licenciatura em Filologia Clássica e o gosto pelas tradições populares são interesses afins.

Outro aspeto em comum é a ligação à família, à mãe, a de Leite de Vasconcelos, austera e grave, circunstância que terá contribuído para a sua atitude reservada e introspetiva; a de Viegas Guerreiro, alegre e que lhe proporcionou uma infância feliz.

Mais um ponto convergente é o gosto por viajar, conhecer, observar e analisar. A formação de Leite de Vasconcelos na área das Ciências contribuiu para o seu método de investigação baseado na observação, interpretação e análise, desenvolvendo um trabalho sistemático e de pormenor. Ao estudar as partes pretendia abarcar o todo, daí as múltiplas áreas de interesse como a Etnografia, Arqueologia, Filologia, Numismática, Epigrafia, para lhe permitir entender as origens, a vida e os caracteres do “Homem português”, tanto do passado como do presente, e especialmente na sua vertente popular. O jovem Viegas Guerreiro, estudante de Filologia Clássica, será certamente marcado por este convívio com Mestre Leite que influenciará a sua criação intelectual também baseada na observação e registo da vida social e constante preocupação com a recolha etnográfica. Conforme nos diz “entrei na casa de Leite de Vasconcellos, que é como quem diz no mundo da Etnografia Portuguesa”.

A curiosidade insaciável, persistência, grande capacidade de trabalho e disciplina que Leite de Vasconcelos conservou até ao fim da vida (82 anos), valeu-lhe uma produção escrita difícil de igualar, ficando ainda imenso material inédito em maços, deixando aos testamenteiros a tarefa de o publicar.

Para a organização das obras póstumas e uma vez que parte dos testamenteiros faleceram antes do próprio Mestre e outros não se empenharam nessa missão, O. Ribeiro consegue para Viegas Guerreiro uma bolsa do Instituto de Alta Cultura para coordenar, organizar e publicar os manuscritos de Leite de Vasconcelos, trabalho esse já iniciado em vida do Mestre que lhe conseguiu uma bolsa entre 1940 e 1941 para “o ajudar no seu labor literário”.

Esta foi uma tarefa complexa, com um manancial de informação imenso, posso referir que caixas francesas com os apontamentos de Leite de Vasconcelos apenas sobre etnografia e existentes na biblioteca do Museu são 29. A estes números podemos juntar as 33 caixas existentes na Faculdade de Letras. O volume da informação, a dificuldade na leitura e a diversidade dos formatos de papéis utilizados pelo mestre são apenas alguns dos aspetos que refletem a magnitude da empresa que Viegas Guerreiro teve a capacidade, o gosto e perseverança de levar a bom termo, e concluir em 1988, com a publicação do vol. X da “Etnografia Portuguesa”.

Em 1981, Viegas Guerreiro retoma também a publicação da Revista Lusitana – Nova série, revista fundada por Leite de Vasconcelos, em 1887 de que se editaram 38 volumes até 1943.

Viegas Guerreiro é pois a pessoa mais indicada para publicar estudos sobre a obra de Leite de Vasconcelos como este que a Fundação me propôs que comentasse. Conhecedor profundo da sua obra e dos seus manuscritos podemos considerá-lo um continuador do seu pensamento etnográfico.

Segundo Viegas Guerreiro, Leite de Vasconcelos é o fundador em Portugal da Etnografia como ciência e o primeiro a realizar trabalho de campo sistemático, abrangendo todo o território nacional e recorrendo a todo o tipo de fontes de informação. Exemplo disso são as fontes epistolares dos numerosos correspondentes que lhe enviavam todo e qualquer dado relacionado com tradições populares, contos, adivinhas, cantigas, sítios arqueológicos, peças, etc.

Leite de Vasconcelos fundou em 1893 o Museu Etnográfico Português, trazendo para o museu os objetos reunidos nas recolhas que efetuava assim como as ofertas que recebia, tornando-se este um prolongamento do seu trabalho de campo. No Museu, reunindo, estudando e expondo os objetos contribuía para o conhecimento das origens, tradições e características do povo português. Na “História do Museu Etnológico Português (1893-1914)”, publicada em 1915, afirma na p. 14 “Naturalmente, quando se conhece melhor uma cousa, há mais razão para a apreciar. Em geral o nosso povo, principalmente o das cidades maiores, tem o sentimento bastante desnacionalizado: isto resulta em parte de se conhecer mal a vida do país. As grandes exposições nacionais contribuem para atenuar o mal; mas um museu ethnographico, influe muito mais”.

Manuel Viegas Guerreiro também teve uma breve passagem na direção do “Museu de Belém”, de 25/4/1974 a 16/6/1975.

Sem o trabalho de Viegas Guerreiro a obra de maior vulto de Leite de Vasconcelos, a “Etnografia Portuguesa”, que como o próprio afirmava era a “aspiração máxima da sua vida”, mas que só lhe foi possível iniciar a sua redação em 1928, já com 70 anos de idade, nunca teria sido terminada.

Viegas Guerreiro recebeu o legado cultural de Leite de Vasconcelos, enriqueceu-o e transmitiu-o às gerações seguintes. Este foi um dos importantes tributos que nos legou.

 

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LÍVIA CRISTINA MADEIRA COITO licenciou-se em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Em 1985 concluiu a Pós-Graduação em Ciências Documentais – Bibliotecas e Documentação na mesma faculdade.
Desde 1984 bibliotecária do Museu Nacional de Arqueologia. Para além das funções inerentes ao cargo, podem-se destacar a conceção dos projeto de organização e inventariação do Arquivo Pessoal de Leite de Vasconcelos e de Manuel Heleno, primeiros diretores do MNA.
Também ligada ao sector editorial do Museu, tem coordenado a edição da revista, “O Arqueólogo Português”, assim como a edição de monografias e catálogos.
Tem publicado trabalhos, em revistas nacionais, na área dos arquivos pessoais e história da arqueologia.
Tem igualmente comissariado exposições bibliográficas.