O sagrado em populações ditas primitivas

 

Manuel Viegas Guerreiro

Saber de experiência feito

Por JOAQUIM CERQUEIRA GONÇALVES


 
Ensaio crítico da autoria de Joaquim Cerqueira Gonçalves, sobre a comunicação de Manuel Viegas Guerreiro:
«O sagrado em populações ditas primitivas» in Povo, povos e culturas (Portugal, Angola e Moçambique). Lisboa: Colibri, 1997


Circunstanciais iniciativas surpreendem, frequentemente, com fecundos resultados. Aqueles que conviveram com Manuel Viegas Guerreiro, conhecendo o seu estilo de vida, dificilmente imaginariam o modo como acolheu o convite para participar em um colóquio sobre o sagrado[1]. Em pequeno texto, ajustado aos moldes de uma comunicação, MVG desenha a raiz e o tronco da árvore das razões do seu saber, das suas preferências, dos seus mais irrecusáveis pressupostos, enfim, da sua não condescendência com voláteis teses de espumas culturais produzidas em estéreis gabinetes. Esse seu texto monta a arquitetura teórica que, inconscientemente, deu suporte ao seu convivial modo de viver e de dizer, em lhano diálogo quotidiano, sendo este de mais longo alcance do que a obediência a um rígido código linguístico-científico. 

Se o estímulo exterior, o mencionado convite para participar no colóquio, passou a ser a condição sine qua non da existência deste texto de MVG, a adesão ao tema orientador, o sagrado, constitui já compromisso mais determinante, onde se cruzam questões de afinidades e de controvérsias de grande fôlego especulativo. Sabe-se, e Viegas Guerreiro confirma explicitamente, que o termo sagrado conduz a sentidos enormemente diversificados[2], nos quais figuram também referências religiosas, sendo em redor destas que MVG vai orientar o discurso da sua comunicação, aliás, observe-se desde já, de forma em boa parte enviesada, pois, se os alvos da sua crítica, têm a ver com solenes interpretações sobre a natureza e formas da religião, não é verdadeiramente esta que o Prof. Viegas Guerreiro analisa, mas, sim, um suposto dela, polo nuclear das religiões monoteístas, a questão de Deus, que é geralmente aprofundado no âmbito da Filosofia e Teologia, sem, todavia, se ocupar da fenomenologia das múltiplas formas religiosas, algumas das quais nem sequer desfrutam de constitutivos nexos com a transcendência. Em terminologia estabelecida na modernidade, esses estudos que, de certo modo, julgam, aliás indevidamente, ocupar-se de uma suposta religião natural, constituem o objeto da Teodiceia.

Tratando-se indiscutivelmente de uma questão de grande complexidade, que se tem mantido viva em todos os séculos, merece, todavia, atenção o modo como ela é formulada por Viegas Guerreiro, o qual, considerando-se, embora, distante da Filosofia e da Teologia – destas  “nem sequer hóspede sou”… -, a vai abordar, em jeito de compromisso irrenunciável, enquanto etnólogo, conjugando, com certa espontaneidade, Ciência, Filosofia e Teologia, cuja história da relação entre estas tem sido preenchida por insanáveis conflitos, como se a vida de cada uma delas dependesse da  desautorização teórica  das outras duas. Todavia, essa exasperação de âmbito teórico é frequentemente superada no discurso quotidiano, cuja concretização, aliás, muitos de nós tiveram oportunidade de o verificar, de modo não programado, nas despretensiosas intervenções orais de Viegas Guerreiro. Mas é, contudo, significativo, por um lado, que o etnólogo chame a questão a debate, e, por outro, a tenha acompanhado com alguns assomos de indignada discussão.

No século das luzes – refere-se particularmente ao século XVIII-XIX -,  os racionalistas franceses e ingleses[3] forjaram uma teoria evolucionista da cultura, a ponto de admitirem, numa seriação temporal hierarquizada, a existência de povos atrasados, os “primitivos”, se comparados com o solene momento do progresso científico. Mais ainda, tais “primitivos” careceriam da estrutura lógica da racionalidade das sociedades modernas. “Em meu tempo de estudante inundava-nos o prelogismo de Lévy-Brühl.”[4].  Contra essa “Antropologia de gabinete”[5], se ergue, frontalmente, Viegas Guerreiro, assumindo o papel do etnógrafo do nosso tempo, que não cuida de buscar as origens do sagrado, mas, sobretudo, observá-lo e descrevê-lo, em sua íntima relação com os outros aspetos da cultura[6]. É no convívio com os Macondes de Moçambique – “E vamos até aos nossos Macondes”, impõe-se a si próprio, com terna humanidade, Viegas Guerreiro[7] - que este investigador vai descobrindo o essencial perfil antropológico, o dele próprio e o daqueles com quem convive, sublinhando os traços que seguidamente se equacionam, os quais, na sua configuração de convergente pluralidade, robustecem uma viva e consistente unidade:

a)      Constituição racional de todos os humanos, em todas as épocas e latitudes;

b)      Natureza dinâmica da razão que, no seu exercício, ruma, naturalmente, em direção à transcendência;

c)      Nesse constitutivo movimento humano de transcendência, situa MVG a religião (área desencadeada, por afinidade, com o tema do colóquio, o sagrado[8]);

d)      Característica monoteísta do transcendente, sobre cuja natureza, todavia, pouco se pode afirmar, legitimando-se, por isso, uma aproximação com a denominada teologia negativa[9].

Sem se pretender esgotar os múltiplos horizontes para que se abre este pequeno texto destinado a ser apresentado em um colóquio, é legítimo ver nele a arquitetónica especulativa da obra do seu autor, bem como, senão sobretudo, uma intencional afirmação do posicionamento racional de Manuel Viegas Guerreiro sobre as grandes coordenadas humanísticas da cultura ocidental, pessoalmente assumidas, incluindo a categoria religiosa, não no sentido de uma opção de uma determinada manifestação exterior, mas na fidelidade à dinâmica transcendente de toda a vida humana[10].

 

Páginas 44 e 45 de «O sagrado em populações ditas primitivas» in
 Povo, povos e culturas (Portugal, Angola e Moçambique). Lisboa: Colibri, 1997

 


 
[1] O Sagrado e as Culturas – colóquio realizado entre 18 e 22 de Abril de 1989. A comunicação apresentada por Manuel Viegas Guerreiro intitula-se O Sagrado em Populações Ditas Primitivas, cujo texto está inserido em “Povo, Povos e Culturas (Portugal, Angola e Moçambique)”, Ed. Colibri, Lisboa, 1997, a que se reportam sempre as páginas referenciadas na presente reflexão.
[2] “Conceito difícil de definir discursivamente este de o sagrado, sobretudo para mim que, em Filosofia, nem hóspede sou e muito menos em Teologia. Cuidei, contudo, de buscar definições alheias e confesso que me não contentaram. Há noções que, por simplistas que pareçam, estão carregadas de complexidade.” (p.35).
[3] Lembra S. Simon, Augusto Comte, Durkheim, David Hume e Adam Schmidt (p.36).
[4] P.44.
[5] P.37
[6] P.38.
[7] P39
[8] “Posta de parte, por absurda, a existência de populações «primitivas» sem religião, fique-se com a certeza de que raros investigadores terão penetrado profundamente no sentido das suas crenças, o que exige profundo conhecimento da língua, dilatada convivência, humildade científica, objetividade suficiente, que mais se propõem do que se realizam.” (p.46).
[9] Esta terminologia é referida por Viegas Guerreiro que, por sua vez, a recolhe em Jorge Dias, esse “mestre maior em Antropologia”, com quem trabalhou (p.41).
[10] Viegas Guerreiro está bem consciente do terreno que pisa, procurando aprofundá-lo, mas não excedendo os seus limites. Se, por um lado, reconhece a referência transcendente da vida dos Macondes – “Ora o pensamento dos primitivos é tão coerente como o nosso. Aonde o saber empírico não chega, sobrevém a explicação transcendente, mas a dedução é lógica, a conclusão correta, embora partindo de premissas aparentemente falsas.” (p.44) -, por outro, não considera injunção racionalmente irrecusável a tese de uma suposta “verdade originalmente revelada” (p. 41).
 
 
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JOAQUIM CERQUEIRA GONÇALVES | Sacerdote fransciscano (OFM)
- Em 1957, licenciou-se em Filosofia Escolástica, pelo Instituto Católico de Tolosa (França).
- Em 1962, licenciou-se em Filosofia, pela Faculdade de Letras de Lisboa, depois de a ter frequentado, desde 1957, tendo apresentado, para o efeito, uma dissertação intitulada Distinção de Essência e Existência no Pensamento de João Duns Escoto.
- Em 1970, doutorou-se em Filosofia, pela Universidade de Lisboa, tendo apresentado uma dissertação intitulada Homem e Mundo em São Boaventura.
- Em 1963, iniciou funções docentes de Filosofia, na Faculdade de Letras de Lisboa.
- Em 1978, realizou provas para Professor Catedrático da Faculdade de Letras, tendo sido aprovado por unanimidade.
- Em 1989, tornou-se Presidente Suplente dos Estudos Gerais Livres, exerceu o cargo após o falecimento de Manuel Viegas Guerreiro.
- Entre  2011 e 2014 as suas obras escolhidas foram publicadas pela IN-CM em 3 volumes com o título de Itinerâncias da Escrita
- Membro da Sociedade Científica da Universidade Católica Portuguesa.
- Sócio da Academia das Ciências de Lisboa.
 


 

 

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