No feminino: do Portugal rural à ruralidade em África
«É um lidar constante, de manhã à noite, de Verão e de Inverno, por isso ela envelhece cedo, crestada de sóis e de neves, com 50 anos, quando lhe damos 60. Mingua-se-lhe o corpo, mas sobra-lhe a alma, força, energia. Que pena eu tenho de não possuir talento literário bastante para a exaltar como merece. Só na África negra e no vizinho Marrocos tenho encontrado mulheres assim. É um heroísmo anónimo, de que os homens se esquecem. E por homens... entenda-se que não diminuo aqui os de Pitões, também eles gigantes do trabalho, que não sabem dar sossego ao corpo; ficam-lhes contudo, momentos mais dilatados de folga.»
Manuel Viegas Guerreiro, in Pitões das Júnias, esboço de monografia (Colibri, 1981)
No Dia Internacional da Mulher, folheamos o olhar e a escrita de Manuel Viegas Guerreiro. O testemunho do grande etnógrafo nascido no campo algarvio, em Querença. Contemplamos a Mulher de Pitões da Júnias, que vinga numa das aldeias mais altas e tradicionais do Parque Nacional da Peneda-Gerês, a mais de mil metros de altitude e a que habita o norte de Moçambique, no seio dos Macondes. Texto e imagem sobre comunidades, visitadas pelo Mestre, que distam em mais 11 mil quilómetros.
O primeiro retrato, em texto (inscrito acima), resulta de uma deslocação do Professor ao Norte do país, a Pitões das Júnias. Citando o próprio, de “feição arcaica e colectivismo”, com o objectivo de fixar no tempo os hábitos e costumes de uma das últimas aldeias comunitaristas portuguesas.
O trabalho foi encomendado por Manuel Gomes Guerreiro, filho de Querença, na altura Secretário de estado do Ambiente, a pedido do presidente do Serviço Nacional de Parques, Reservas e Património Paisagístico, o engenheiro silvicultor Fernando Santos Pessoa, enlaçando estes três nomes no final da década de 70 do século XX e até aos nossos dias.
Hoje, em Querença, a Fundação Manuel Viegas Guerreiro promove e preserva o Percurso Eco-Botânico, nomeado de Manuel Gomes Guerreiro, engenheiro silvicultor, académico e ecologista. O Percurso, vocacionado para a flora mediterrânica e autóctone é da autoria do também arquitecto paisagista, Fernando Santos Pessoa, nascido na Figueira da Foz, a viver há décadas no Algarve.
Saltos à corda O segundo retrato é o de um grupo de mulheres moçambicanas acompanhadas por duas crianças. Na legenda manuscrita de Viegas Guerreiro, lê-se: “Saltos à corda”. O grupo foi fotografado no âmbito da investigação, no final da década de 50 do século XX e inclui Manuel Viegas Guerreiro. Foi revelada na obra Os Macondes de Moçambique, no 4.º volume, dedicado a Sabedoria, Língua, Literatura e Jogos (Junta de Investigação do Ultramar, 1966), da autoria de Viegas Guerreiro. Devido à posição do Sol, o etnógrafo figura no instantâneo, atrás e à frente da lente. Numa das reproduções desta fotografia, em papel, observamos uma linha de enquadramento desenhada pelo próprio, excluindo a sua silhueta (na parte inferior). Podemos considerar, nos dias de hoje, que se trata de um crop manual do século XX. Os Macondes de Moçambique, em quatro tomos, constitui uma obra de referência incontornável sobre as vivências dos Macondes. Decorre da Missão de Estudos das Minorias Étnicas do Ultramar Português e foi elaborada por Jorge Dias, Margot Dias e Manuel Viegas Guerreiro.
Mulheres de Pitões das Júnias O Inverno de 1978 atingiu temperaturas que chegaram aos 12 graus negativos no mês de Fevereiro, regista Viegas Guerreiro. Aproveitando a sua licença sabática no ano lectivo de 77-78, há quase meio século atrás, como tantas vezes fazia em outras pausas, continuou mergulhado na etnografia. Viajou para o meio dos montes gelados de Pitões. Fotografou mosteiro e capela, casas de pedra, eiras e telhados, instrumentos de trabalho, os campos, os costumes e até, uma matança de porco e um casamento. Ao lado dele, o artista Alfredo da Conceição, que a Norte desenhou foices, malhos e ancinhos, o interior do forno, do moinho e das casas.
Viegas Guerreiro capturou, com a sua objectiva, várias mulheres: a acompanhar os homens nas lides do campo, sozinhas a caminhar junto ao gado, a pastorear, a tender pão, pronto para crescer no forno comunitário da aldeia. Falou com muitas delas e fotografou-as a carregar lenha sobre a cabeça (fotografias abaixo com legendas do Professor). Regressou em Abril, «pela sementeira da batata». Confiou no povo e esperou pela próxima estação. «Fico esperando o que toda a gente diz ser o paraíso da terra: a floração silvestre de Maio e S. João, aliciante de cores e recendências.»
Cumpriu-se e, no final do trabalho de campo, substituiu as subidas de montes rochosos pelo terreiro de dança. Dançou do alto dos seus quase 67 anos. Dançou com uma mulher e deixou-se fotografar, de corpo inteiro, a cores e sem crop.

IMAGENS | Espólio MVG | FMVG
Fotografia de grupo de mulheres em Moçambique, da autoria de Manuel Viegas Guerreiro (MVG) Anotações do investigador: legenda da fotografia do grupo de mulheres em Moçambique.
Mulheres fotografadas em Pitões das Júnias, da autoria de MVG Legendas MVG: Maria Teresa Rodrigues, a tia Ricoca; Com a comida para os segadores; Os bois do povo e a pastora; Mulher tendendo grandes pães de centeio em Santo André.
Parte final do livro Pitões das Júnias, esboço de monografia, onde se vê Manuel Viegas Guerreiro a dançar no Maio silvestre.






