Fernando Santos Pessoa laureado com Honoris Causa
Fernando Santos Pessoa, Arquitecto Paisagista e Conselheiro Geral da Fundação Manuel Viegas Guerreiro, autor do Percurso Eco-Botânico Manuel Gomes Guerreiro, em Querença, foi consagrado Doutor Honoris Causa, no dia 17 de Abril, pela Universidade do Algarve, a par com José d’Encarnação, professor, arqueólogo e historiador.
Nos discursos, ambos tocaram valores que muito dizem a Querença, ao trabalho de valorização da Cultura e da Natureza.
O historiador, natural de São Brás de Alportel, valorizou a palavra, grafada e dita. Exaltou a poesia-património e a necessidade de registar o falar algarvio, para o qual tem contribuído.
Recordou um dos seus professores mais queridos:
«E a poesia, a poesia vive de um outro património primordial. A língua. Apraz-me, a esse propósito, evocar a memória de Manuel Viegas Guerreiro, meu professor que foi, de Etnologia. Nas aulas, deliciava-nos a dar estalidos com a língua, para mostrar como falavam os Bochimanes, que ele tivera oportunidade de estudar. A importância da fala. E nesse aspecto, uma saudação particular a Lídia Jorge, que no seu O Dia dos Prodígios teve a feliz ideia de dar forma literária ao falar quotidiano inclusive, anotando, por meio de uma pontuação aparentemente estranha, as pausas que se fazem ao falar. O falar algarvio, de que já temos dicionários, o de Eduardo Brazão Gonçalves, por exemplo, e de que pessoas como Estanco Louro e mais recentemente o padre Afonso Cunha procuraram reabilitar e escritores como Julieta Lima não querem deixar morrer. Eu próprio tenho dado todo o apoio ao Dicionário da Língua Portuguesa da Academia das Ciências indicando terminologia nossa. Ainda há dias se introduziu “garrocho”, que não estava lá.»
Já João Guerreiro, padrinho do Doutoramento Honoris Causa de Fernando Pessoa e ex-Reitor da Universidade do Algarve UAlg, recordou o papel do arquitecto na história da Ecologia em Portugal e destacou o seu carácter lutador e persistente:
«A legislação sobre áreas protegidas permitiu, que por proposta do Serviço de Parques, presidida por Fernando Pessoa, fossem criados ao longo dos anos setenta vários Parques e Reservas Naturais. Refiram-se os parques naturais da Arrábida, de Montesinho, da Serra da Estrela, Serra de Aires e Candeeiros, assim como as Reservas Naturais de Sintra-Cascais, do Estuário do Tejo, das Dunas de São Jacinto, do Estuário do Sado, do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António e também do Parque Natural da Ria Formosa. A atribuição da designação Formosa à Ria de Faro foi assumida numa conversa de final de tarde realizada entre Fernando Pessoa e Fausto Nascimento enquanto passeavam e admiravam a paisagem desta zona húmida reconhecidamente de enorme interesse ecológico. Reserva natural da Ria Formosa que passaria, anos mais tarde, a Parque Natural. Fernando Pessoa, personalidade saudavelmente impertinente mas profissionalmente conhecedor, assertivo nas suas opiniões, sempre disponível para uma boa conversa, de preferência polémica. Mas também com enorme dificuldade de adoptar alguma transgressão em relação à sua linha de entender as paisagens como uma síntese de interação de forças naturais e artificias que definem uma comunidade. Ameaça com frequência que vai deixar de opinar sobre os problemas do Mundo, mas o que acontece é que o Mundo não o deixa descansado. Diria mesmo que o Mundo não nos deixa descansados. E Fernando Pessoa, nunca alheado dos problemas do Mundo, não resiste a explodir contra a ignorância e as injustiças que não páram de se manifestar. E utilizando a sua pena, não se cansa de expor as contradições da nossa época e de nos convocar para a indignação pública.»
Por fim, o homenageado, hoje filho adoptivo de Querença e amigo tanto de Manuel Gomes Guerreiro como de Manuel Viegas Guerreiro. No discurso emocionado de agradecimento, perante uma plateia de amigos e admiradores, Fernando Pessoa destacou a importância crescente da arquitectura paisagista no contexto mundial actual:
«Quero manifestar um enorme e sentido agradecimento ao Professor João Guerreiro, que aceitou apadrinhar este tão honroso galardão e permitam-me esta evocação, que eu recorde nele o grande amigo que tive no seu pai, o saudoso professor Manuel Gomes Guerreiro, fundador e primeiro Reitor desta Universidade, com quem convivi muito de perto até ao seu falecimento. Eu ficava por aqui mas, ao olhar esta sala fico emocionado com a quantidade de amigos que vieram de fora, alguns de longe, e que me vieram dar o seu apoio. Alguns vieram de longe e são tantos que eu me furto a citar-lhes os nomes, para não falhar algum. Mas vou pedir que me dêem uma excepção. E que recorde aqui um velho amigo e companheiro de décadas, sempre do mesmo lado da barricada, que detesta viagens e veio aqui, mas veio. O Jorge. O Professor Jorge Paiva, cientista de renome internacional. Senhoras e senhores, esta cerimónia dá-me oportunidade de falar mais uma vez, e agora neste ambiente privilegiado da Universidade, sobre a arquitetura paisagista. A pressão desordenada sobre os territórios e os seus recursos ameaça seriamente um pouco em todo o Mundo a perenidade dos ecossistemas e a arquitectura paisagista torna-se cada vez mais o perfil académico que dá a formação holística que permite enfrentar melhor um tal estado de coisas. O arquitecto paisagista não é apenas um jardineiro diplomado, como às vezes se pensa. A sua intervenção implica a utilização dos instrumentos essenciais para o território funcione equilibrado e que são, no fundo, a essência do ordenamento paisagístico. Desde a primeira geração de arquitectos paisagistas que a nossa implantação nos actos de intervenção no espaço biofísico tem sido um caminho de progressivo reconhecimento da importância desta nossa intervenção. A arquitectura paisagista é uma actividade quase tão antiga quanto a sedentarização do ser humano.»
Poderá ver a cerimónia na íntegra no canal de Youtube da Universidade do Algarve, aqui: https://www.youtube.com/watch?v=kf2HODvWql8
