Celebração Lídia Jorge
Palavra Viva
Narrar sin fin, testemoniar los interesses mortíferos e los poderosos, es um deber.
Lídia Jorge
A epígrafe está inscrita na crónica de Lídia Jorge: «Uma palavra mais forte do que um míssil», publicada no jornal El País, em Dezembro de 2025.
Alicerçaram o passado dia 20 de Junho, por um lado, a narração infinita de Lídia Jorge, o despertar para as trevas, a denúncia dos atentados em escala, humanos e digitais e, por outro, a disseminação regular do seu olhar na imprensa estrangeira. Resistência e consciência.
Nove meses após o 5.º Festival Literário Internacional de Querença (FLIQ), que prestou tributo à vida e obra de Lídia Jorge com ênfase nos géneros literários da prosa e da poesia, celebra-se, na Fundação Manuel Viegas Guerreiro, a crónica e – nas palavras de João da Silva Miguel, seu presidente – «o duplo quadragésimo aniversário da autora.»
Ao longo de três minutos, no auditório transformado em cápsula do tempo recordam-se, num vídeo de estreia, os melhores momentos do encontro intitulado Os grandes navios da Terra. Lídia Jorge surge no início: «Esta Fundação e o programa do FLIQ, que é realizado aqui no meio dos montes, no meio dos matos, no meio da floresta, poderia ser aplicado no meio dos jardins da Gulbenkian. Estou absolutamente impressionada pela forma como este FLIQ – o quinto que homenageia escritores portugueses ligados ao Algarve – harmoniza várias disciplinas convergentes, desde a música, à exposição, à pintura, à escultura, enfim, as várias componentes aqui reunidas.» – sintetiza.
José Carlos Vasconcelos, eterno director do Jornal de Letras, Ideias e Artes aceitou o convite para sublinhar os principais traços da escrita da aniversariante. Entre outros capítulos, destaca a vertente quasi-ensaística das crónicas de Lídia, lendo uma das passagens de «As noites brancas», agora publicada no livro O Céu Cairá sobre Nós:
«Reforcei a ideia de que os escritores se dividem em dois grupos – os escritores-âncora e os escritores-antena. Os primeiros são aqueles que se alimentam da profundidade da vida e da cultura, criam a partir da História em seus ciclos longos, e têm condescendência com o presente porque conhecem a ondulação do tempo como categoria modeladora. São Marguerite Yourcenar e W. G. Sebald. Pelo contrário, os escritores-antena são aqueles que vivem seguindo a vibração do momento, estão ligados aos factos do quotidiano político e social, cheiram o ar, as tempestades, acertam e enganam-se em público, as suas fábulas resultam da transfiguração do presente, inventam e fazem julgamentos a partir dos ciclos curtos da História.»
Recorrendo a José Rodrigues Miguéis, escritor e desenhador português, José Carlos Vasconcelos espelha a frase deste na capacidade de a autora transfigurar o local em universal e o universal em local, conferindo universalidade à sua obra: «O universal está no meu quintal. A questão é saber cavar». José Rodrigues Miguéis, nome denominador comum na crónica de Lídia Jorge em «Aqueles que atravessam a Terra».
Mirian Tavares, professora catedrática da Universidade do Algarve, moderadora do painel Pelas linhas do Tempo e leitora confessa de Lídia Jorge, evoca Terêncio: «Nada do que é humano me é estranho», numa referência à autora.
Nas palavras de abertura da conversa, Miriam Tavares partilhou o privilégio sentido de ali estar: «Quando falei aos meus amigos do Brasil que iria moderar esta mesa, todos quiseram estar no meu lugar. E eu disse: Sim, mas sou eu que lá estarei!» Lídia Jorge prolonga o momento descontraído: «Então vamos deixar-lhes saudades!»









Humanidade no livro
Lídia Jorge toma a palavra e remete o discurso para a comunidade que existe em cada livro, com seres humanos lá dentro, a cada página. Desafia os presentes a ampliarem a celebração, além do seu aniversário: «Esta é uma celebração de todos nós», enfatiza.
Do particular para o geral, expande o horizonte e lembra os testemunhos dos astronautas da missão Artemis II. Na chegada à Terra, Jeremy Hansen sugere que quando se olhe para o espaço, vejam não somente os astronautas mas a Humanidade, como um espelho que nos reflecte. Lídia Jorge sumariza: «Por isso eu digo hoje: se de facto gostam um pouquinho de mim, o que vêem, quando olham para mim, são vocês.»
Celebração que a escritora transpõe para a música. «Na minha juventude uma canção que me marcou profundamente e possivelmente terá marcado algumas pessoas que aqui estão, foi Gracias a la vida, cantada por Violeta Parra, chilena, por volta de 63-64. Violeta Parra que teve uma vida desgraçada mas que teve a força de recriar o canto chileno. Gracias a la vida que já não está na moda. Do que conheço da música ligeira, não conheço um poema que diga o que aquele diz» – recorda.
Lídia Jorge concretiza: «Ela começa por dizer Gracias a la vida que me ha dado tanto. E vai depois bendizendo, que bom que me deu os olhos para eu distinguir as cores, que bom que me deu os pés para eu correr, para eu conhecer as montanhas, conhecer os desertos, conhecer as praias, conhecer as planícies, que bom tudo isso. A certa altura, a terminar, canta Así yo distingo dicha de quebranto/ Los dos materiales que forman mi canto/ Y el canto de ustedes que es el mismo canto/ Y el canto de todos, que es mi propio canto. Isto é que eu acho que devo dizer: cada um de nós, se alguém canta alguma coisa, canta o canto dos outros.»
Palavras e canções de amor para Lídia Jorge
Foi com canto que a festa começou, na igreja de Nossa Senhora da Assunção, Matriz da aldeia. A voz de Sylvie Brunet-Grupposo, mezzo-soprano, acompanhada ao piano por Marta Silva marcou o sábado e o coração de Lídia Jorge. «A única coisa que eu pedi foi que houvesse um momento assim. E, de facto, ultrapassou tudo o que eu imaginei» – confessaria a escritora, já algumas depois horas, ao jornal online Sul Informação.
O programa da tarde iniciou-se também com música, com o quarteto de acordeões do Conservatório de Música de Loulé – Francisco Rosado, “InveЯsos”. Apolo, Clara, Gabriel e Roland, sob a orientação do professor Vítor Mira, foram responsáveis pelo sorriso de Lídia Jorge ao longo da apresentação de cerca de 15 minutos.
Trocas de palco e de palavras, pautadas por autógrafos, desenharam a tarde. Uma tábua de desejos passava de mão em mão, desafiando os presentes a escrever um desejo. De acordo com o mote lançado na parte da manhã: «Desejos para as árvores, para o oxigénio e para os corais. Para os bichos, os insectos também. Os mamíferos e os répteis. A borboleta e a joaninha. Para o escorpião. Para os rios e para as lamas, para as placas submarinas, abissais. Para as fendas e fissuras. Para o silêncio e o ruído. Para a capacidade de escuta. Para os de idade menor e para os de idade maior. Alguns aqui, outros espalhados pelo mundo fora. Para o nosso, o vosso, vizinho.»
No final da tarde, o encontro deslocou-se para junto da alfarrobeira do Percurso Eco-Botânico Manuel Gomes Guerreiro, irmanada por afeição com uma oliveira milenar. Os desejos cativados no dia da festa de Lídia Jorge foram guardados, pela sua mão, num pote de barro. Sementes para prolongar a celebração da autora. Toni, apicultor de Querença e especialista em mel e seus derivados, selou o pote com cera de abelha, fervida no local. Os desejos guardados a meio metro do solo, aos pés da alfarrobeira, serão revelados daqui a 20 anos, cem anos após o nascimento de Lídia Jorge. Até lá, terão duas árvores históricas como guardiãs.











Unir corações e canções
O verso de Paul Verlaine Música ainda, sem nenhuns temores! prolongou o programa musical. Em mais um acto-surpresa, Lídia Jorge foi desafiada a fazer a apresentação de Dino d’Santiago, músico que 12 dias antes vestiu a pele de «padrinho» da atribuição da Medalha de Mérito Cultural a Lídia Jorge.
Entre diversos elogios à qualidade humana e artística do compositor e activista – «alguém que nos olha sempre de frente, nos olhos» – a autora condensa: «Dino é um símbolo de acolhimento.» No auditório da Fundação a voz de Dino e as batidas rítmicas do irmão, Elísio, convocam a atenção das mais de cem pessoas que prestam tributo a Lídia Jorge. Um final de programa sóbrio e discreto, entoado por dois temas: «Filho do Vento», composto a quatro mãos, com Lídia Jorge, para a adaptação ao cinema da obra O Vento Assobiando nas Gruas; e uma morna, evocando a cultura-natal da dupla de irmãos, unindo num só momento, palco e plateia. Unindo nações.
«Arrepia o tempo» – canta Dino em um dos versos de «Filho do Vento», apesar de este ser o dia que antecede o solstício de Verão, lembrado por João Silva Miguel, na abertura: «O dia mais longo do ano. A noite mais curta. O momento em que a luz parece demorar-se mais sobre a terra, como se quisesse guardar cada pormenor, cada rosto, cada palavra. Esta é a melhor data para celebrar uma escritora cuja obra é feita precisamente disso: de luz que persiste, de memória que não se apaga, de ciclos que se abrem.» O juiz conselheiro evidenciou os recomeços e as pedras de toque entre os nomes do patrono da Fundação, Manuel Viegas Guerreiro e de Lídia Jorge: «Ele, etnógrafo de corpo inteiro, dedicou a vida a recolher a memória do Algarve rural e em outras partes do mundo – os cantares, os ritos, as falas, os saberes anónimos. Ela, essa vizinha de Boliqueime que escutava histórias à lareira e voava nas asas do vento, transformou essa mesma matéria – a paisagem humana, o chão, a voz e a dignidade das gentes – em literatura universal. Um registou para a ciência; a outra recriou para a arte. Arte e ciência são duas faces da mesma moeda: ambas são formas de analisar, investigar e compreender o mundo.»
No resumo de sábado, todos se sentem bafejados pelos títulos de Lídia Jorge e suas personagens: Milene, Carminha, Zuzete. Intuem-se nomes como os de William Faulkner, Milan Kundera, Gabriel Garcia Márquez, Virginia Woolf, Rosa Montero, Eduardo Lourenço, Virgílio Ferreira, Saramago, Joaquim Magalhães. Escutam-se os de Maria das Dores, Remédinha, Clara, Duarte, Carlos, e de tantos outros que, sobre a primeira camada do bolo de aniversário de Lídia Jorge ou pelas ramificações e entroncar da sua alfarrobeira – no seu todo – fundam as raízes da autora, perfazendo oito décadas de vida. Apenas.















